segunda-feira, 25 de maio de 2009

O passarinho escandaloso


Toda santa primavera, quando os pássaros voltam da migração de inverno e começam a soltar o bico a plenos pulmões por tudo quanto é lado, eu lembro de um episódio logo quando cheguei aqui, há uma pequena eternidade. Foi o seguinte: um passarinho conheceu uma donzela de penas e decidiu fazer um ninho numa árvore em frente ao nosso apartamento. Até aí tudo bem e tudo lindo, não fosse a folga da madame de plumas, que sassaricava pra todo bicudo que passasse perto do galho, fazendo o passarinho quase ter um ataque de nervos de tanto berrar expulsando os curiosos. E aquela cantilena se estendia pelo dia to-do e tudo o que eu entendia em meio àquela algazarra de sirene era:

♫ ♪“ É, NÃO É, TIA?” “É, NÃO É?” ♪♫

Sempre entoando a interrogação. Eu já estava entrando em desespero e só não tentei me mudar pra alguma jaula do zoológico, próximo de casa, porque não sabia ainda alemão. Mal começava o dia e aquele alto-falante de penas abria a sua sonoridade, como se não tivesse nada mais importante para fazer neste mundo do que danificar os tímpanos dos meus pobres ouvidos:

♫ ♪ “É, NÃO É, TIA?” “É, NÃO É?”♪♫


E eu dava graças a Deus quando a noite chegava e aquele histérico se acalmava. Por essa altura, a minha cabeça já estava explodindo, os meu nervos pipocando e, o que é pior, aquele canto-chiclete não me largava nem em sonho, porque mal as pálpebras eram vencidas pelo peso do cansaço, lá vinha aquele pesadelo:

♫ ♪“É, NÃO É, TIA?” “É, NÃO É?” ♪♫


Tomei um monte de chá calmente, fui na farmácia comprar outros tranquilizantes homeopáticos e, confesso, às vezes chegavam-me quase até a esquina do juízo uns pensamentos tortos, de como seria bom descobrir algo que calasse o bico daquele escandaloso. Mas Deus é grande e a primavera curta. Quando terminou o período de acasalamento, o passarinho se mandou com a sua parceira assanhada “até-nunca-mais-ver”. De repente voltou a paz. Eu quase não acreditava na grandeza daquele silêncio. Abri os dentes no quarador de par em par e, com eles, as janelas do apartamento. Liberdade, ar puro, silêncio... silêncio... de cemitério... Silêncio de quê???... Como é??? ...


Vocês não vão acreditar, mas aquele silêncio todo começou a me incomodar. Eu tinha me acostumado às histerias do meu amigo de bico e agora ele estava me fazendo falta.

♫ ♪“É, NÃO É, TIA?” “É, NÃO É?”♪ ♫

Descobri depois que esse é um pássaro da região de Saarland, onde fiquei no início. E toda primavera, quando a monotonia do inverno é sacudida pelo gorjeio alegre da passarada, lembro do passarinho de outrora e só desejo que ele tenha deixado muitos descendentes emplumados e que todos entoem, o dia inteiro, até o final do verão, aquele ...

♫ ♪“É, NÃO É, TIA?” “É, NÃO É?”♪ ♫

pelos tempos afora. Por sorte, a Natureza é sábia e quando solta seus brados não se importa com os queixumes de quem não entende, ainda, os seus desígnios.

Imagens: Internet

4 ♫ abriram o bico ♫:

Thatiana Mirella disse...

Boa tarde Zilma!
Ler o texto de hoje, "O passarinho escandaloso", me fez lembrar o meu "pesadelo" da primavera, as cigarras invadem Brasília e cantam o tempo inteiro. Como a cidade é muito arborizada, não há lugar que não tenha um grupo de cigarras gritando agudamente no nosso pobre ouvido. Nossa como é agudo o canto da cigarra. Quando elas decidem partir, como você falou, fica um silêncio de cemitério na cidade. Parece que estou em outro universo, tenho a sensação que posso ouvir até uma agulha cair no chão... que exagero. Mudam os personagens mas não muda o enredo. Então, minha querida, entendo você muito bem. Beijos.

Zilma disse...

Oi, Tathi

Havia me esquecido das cigarras... É verdade, elas expressam a alegria com muita euforia, numa explosão de sons. Em grupo, deixam o meu"passarinho escandaloso" ficar parecendo "o primo bem comportado". Se bem que o esse moço cantava também rasgadamente. Eu não sabia que o verão de Brasília era acometido por esses "exageros". Sem dúvida, um autêntico festejo ao sol. Que bom saber que você passou por aqui. Beijos.

Cristhiane disse...

Não foi a toa que o passarinho escandaloso escolheu tua janela para fazer o acasalamento, né artista?
beijins!

Zilma disse...

Ai, minha amiga, só você mesmo com os seus comentários poéticos. Mas esse episódio foi um ganho, sim. Aprendi a valorizar muita coisa a partir daí. Os pássaros podem ser bons mestres... Beijos