Hoje vou falar de uma história meio macabra que vem sendo noticiada pelos jornais daqui, mas acredito que vocês já estejam sabendo. Inicialmente peço desculpas se não conseguir usar corretamente os termos de medicina legal, para mim desconhecidos.

Foi descoberto um cadáver no complexo hospitalar Charité, aqui em Berlim, que pode ser o de Rosa Luxemburgo, líder comunista morta há 90 anos. Se o fato for confirmado, essa parte da História terá que ser reescrita. O quebra-cabeça do episódio, que beira a um romance policial, começou a tomar forma quando Michael Tsoko assumiu, há dois anos e meio, a chefia de Medicina Legal do hospital. Quando ele estava examinando a coleção completa do instituto e os seus respectivos laudos, percebeu que um cadáver feminino há muitos anos à mostra na vitrine, seis andares abaixo do seu escritório e vis-à-vis com a estação principal de trem de Berlim, não fora ainda identificado. Detalhe: o cadáver não possui nem cabeça, nem mãos, nem pés. O corpo está acinzentado, sujo e cheio de manchas, conservado em formol. Imediatamente ele lembrou de um boato, que circulava em rodas fechadas, mas só agora veio a público, de que Rosa Luxemburgo nunca fora sepultada, que seu cadáver nunca deixou o Instituto de Medicina Legal, portanto outra pessoa fora enterrada no seu lugar. E esse boato vem de uma longa data: sobreviveu à República de Weimar, ao nazismo, à Alemanha Comunista e agora, jogado novamente à luz do dia, ganhou uma nova chance de ser confirmado.

Tsoko mandou buscar nos arquivos os relatórios cuidadosamente guardados sobre a autópsia da mulher que foi enterrada como a se fosse a militante política. “Não é necessário ser um especialista para concluir que o cadáver jamais pode ter sido Rosa Luxemburgo”, disse. Segundo o médico, o ferimento apresentado na cabeça provém de uma queda e não de uma coronhada, como deveria ser se fosse o dela, que foi assasinada por paramilitares com duas pancadas certeiras. E os legistas da época não escreveram no protocolo que o cadáver tinha as pernas desiguais e uma desarticulação no quadril, o que é sabidamente conhecido que Rosa Luxemburgo possuía. Além do mais, os dentes não foram examinados – e isso já era uma prática habitual na época – e a comparação com as fotos mostra que a medida do tórax não bate.

Tsoko decidiu examinar, então, através de tomografia computadorizada, a defunta da vitrine. E há uma concordância espantosa de fatores com Rosa Luxemburgo: o corpo mede 1,50 metros e possui, nos dois braços, as marcas características causadas pelo aperto de roupas como Rosa gostava de vestir. De acordo com os exames, a mulher sofria de artrose quando viva, possuía pernas de tamanhos diferentes e no momento da sua morte contava entre 40 a 50 anos (Rosa morreu com 47). Além disso, as medidas do tórax estão de acordo. Quer dizer: tudo aparentemente se encaixa.

Mas onde poderiam estar as mãos e os pés? E sua cabeça? No Charité existem centenas de cabeças conservadas, porém já tão desfiguradas, que não dá mais para saber qual delas pertenceu (se for o caso) a Rosa Luxemburgo. E o último que poderia esclarecer o equívoco morreu em 2006, segundo o médico. A investigação parece ter emperrado e Michael Tsoko espera pô-la em andamento encontrando material para fazer um teste genético. E existem duas possibilidades. A primeira seria obter, com a permissão do governo polonês, a coleta de material de uma parente da líder, que possui mais de 90 anos, sofre de demência e vive num hospital nas imediações da Vasórvia. A segunda seria conseguir as mechas do seu cabelo, que seu namorado de longa data, o advogado de Frankfurt (e depois vice-presidente do KPD, o partido comunista alemão), Paul Levi, guardou dela. Essas mechas devem ter ido para os EUA juntamente com os descendentes dele. Mas talvez hoje exista alguém que ainda tenha um chapéu ou um casaco que pertenceu à líder revolucionária.

Enquanto a confirmação não vem, Tsoko aguenta as críticas. “Existiram na época muitos disparates sobre o cadáver de Rosa Luxemburgo”, disse o historiador Christoph Kopke, da universidade de Potsdam. Já Klaus Gietinger, diretor artístico de Frankfurt e autor do livro “Eine Leiche im Landwehrkanal. Die Ermordung Rosa Luxemburgs (Um cadáver no canal da milícia. O assassinato de Rosa Luxemburgo) disse que o corpo foi corretamente identificado e sepultado em 1919. Só que talvez esteja hoje em um lugar desconhecido. O que existe no atual cemitério foi colocado nos primeiros anos de DDR (a Alemanha Comunista) e, anteriormente, já em 1935, isso havia sido detruído pelos nazistas. Quer dizer: quase não restou pedra sobre pedra.
Vamos aguardar a continuação da história.
Fotos: todas da internet.
Para saber mais sobre Rosa Luxemburgo clique aqui ou no Wikipédia
Um texto sobre o assunto do post em alemão (se não funcionar, clique por favor no título da postagem).
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