sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A polêmica do quadro


A imagem acima é a de um quadro que pertence ao acervo das fábulas berlinenses. Ou o exemplo mais bem acabado de quando a arte vira um negócio. Ele passou mais de 10 anos pendurado num local chamado Piano Bar, na Kantstraße (rua Kant), no bairro de Charlottenburg, até ser leiloado no último mês pela Christie´s, em Londres, pelo valor estonteante de 2,5 milhões de euros. Mas até o quadro ser batido no pregão por um colecionador americano como o mais caro trabalho do artista alemão Martin Kippenberger (1953-1997), rolou uma história curiosa e cheia de facetas, como muitas a colorir o mosaico dessa cidade. O Piano Bar ficou famoso por ter reunido os intelectuais, as celebridades locais e aquelas que estavam de passagem por Berlim, em noitadas badaladas regadas a bons vinhos, servidos por garçons que falavam francês. Antes que essas aves do paraíso partissem em revoada para as bandas de Mitte (Centro), deixando o proprietário vendendo os pertences para fugir da insolvência, era possível ver nomes de peso internacional esquetando as cadeiras do ambiente: Robert de Niro, Madonna, Jack Nicholson, David Bowie, apenas para citar alguns deles.



Martin Kippenberger, um artista tido por genial e boêmio de carteirinha que morreu há 12 anos, era frequentador assíduo do local. Certo dia fez um deal com o dono, que era seu amigo: pintaria um megaquadro para o bar e de volta seria dispensado por toda a vida de pagar a conta. O negócio foi fechado e pouco depois ele apresentou uma tela gigante, de 2,07 por 3,8 metros, onde se via primorosamente detalhado o interior ainda vazio do lugar, como se fosse uma fotografia daquele momento exclusivo do proprietário que passa a última vista pelo ambiente antes de abri-lo para o público. Frequentadores do Piano Bar não se cansavam de elogiar o trabalho, que ficou mesmo magnífico. O que não é bonito é um fato apresentado em minúcias pela revista Spiegel e pelos jornais locais nos últimos dias: quem pintou o quadro não foi Kippenberger, ele apenas emprestou o seu nome à obra.


Kippenberger, talvez para se safar do incômodo da tarefa, pegou um atalho vantajoso para si: o encomendou a um artista desconhecido, que ganhava a vida pintando cartazes para os cinemas locais: Götz Valien, um austríaco morando em Berlim. E Valien, que acabara de formar uma família, executou o trabalho de boa vontade, por mil marcos (o dinheiro da época, início da década de 90, equivale a cerca de 400 e poucos euros). Só que não com tinta à óleo, como esclarece o certificado de autenticidade oferecido pela Christie´s, mas sim com tinta diluída para fachada – e colocou a sua assinatura de forma bem discreta, em 3 lugares estratégicos, embora quase imperceptíveis. Algum tempo depois, Kippenberger pediu que ele fizesse um segundo trabalho, igualzinho ao primeiro, com a diferença de que esse teria o próprio quadro figurado entre as pinturas da parede do bar, quer dizer, mostrando o quadro dentro do quadro. Por esse trabalho, que foi para Paris para o Centre Pompidou, Valien cobrou o dobro do preço.


Essa história já tinha sido narrada há alguns anos por uma revista de arte, mas na época ninguém deu muita atenção. Agora, com o quadro “Paris Bar” atingindo preço exorbitante e catapultando Kippenberger para a esfera dos artistas alemães mais caros, o interesse é maior. Se bem que o caso, ao que tudo indica, não terá consequências. Kippenberger está morto e a Christie´s não confirmou o fato. Através de um porta-voz, disse apenas que “todos que participaram da ação teriam que ter bem claro que Kippenberger encomendava quadros com frequência”. Pagar barato para outros fazerem seu trabalho e ele só precisar colocar o nome, curtir a preguiça e ganhar os louros, parecia fazer parte do seu princípio artístico. E Götz Valien? Ele tem agora 49 anos, é pai de dois filhos, continua pintando cartazes e ainda reside em Berlim, não recebeu um centavo dos milhões pela venda do quadro, nem um pingo de reconhecimento por sua obra, mas vê o caso com leveza. “Eu pintei o Kippenberger mais caro”, disse divertido. E falou que talvez faça um terceiro quadro. Só que, para evitar o plágio, vai mudar os quadros dentro do quadro. Seria recomendável ainda uma assinatura grande, bem visível. Talvez assim esse tenha a sua autoria reconhecida.

Mais sobre o asunto (em alemão):
Spiegel.de
rbb-online
Bild.de

Fotos: 1ª (dpa) o quadro da polêmica:"Paris Bar"; 2ª e 3ª (internet) a fachada do Paris Bar na Kantstraße e o local por dentro; 4ª (internet) Martin Kippenberger em 1986; 5ª (Bild.de), Götz Valien ao lado do "Paris Bar", o quadro que acabara de pintar guiando-se por uma fotografia, no início da década de 90. "

3 ♫ abriram o bico ♫:

Mi disse...

que historia interessante! =) nao tinha escutado sobre o quadro. bjs!

Zilma disse...

Oi, Mi...

Pois é, de vez em quando aparecem umas histórias dessas por aqui. Atualmente, contudo, estou sem tempo/tranquilidade de postar. Esse período que antecede as festas de final de ano é duro, viu! Só penso em me clonar. Bjs.

flavio galdino disse...

É incrível, conheci a obra de Kippenberger há alguns meses comprei o livro, mas não sabia desta história, muito legal!