segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A queda do Muro, uma retrospectiva


Hoje completa 20 anos da queda do Muro. Já faz tanto tempo que moro nessa Alemainha” que poderia acender também umas velinhas e comemorar junto esse jubileu. Mas, relembrando essa época: residíamos em Berlim há poucas semanas e naquele gelado 9 de novembro tomamos parte, meu (ex-)marido e eu, da multidão trêmula de frio e de emoção, que esperava ansiosa na Bornholmer Straße, no lado ocidental, pela remoção autorizada do primeiro bloco do Muro. Palavras de ordem, júbilo, confraternização, aplausos, risos e lágrimas marcaram as primeiras horas da tão esperada “liberdade”. A Reunificação dava os seus passos decisivos na História pacificamente, evitando orientar-se por exemplos macabros, como o banho de sangue na Praça da Paz Celestial, na China, meses antes, quando o levante popular foi brutalmente sufocado pelo governo. A queda do Muro de Berlim mostrou para a Humanidade que é possível reverter estruturas rígidas e pôr em curso transformações profundas de modo soberano, pela pressão e vontade do povo, mas sem armas.


De lá, fomos para o Checkpoint Charlie (anteriormente a mais famosa fronteira entre as duas partes da cidade) ver e aplaudir com a multidão eufórica, os primeiros “Trabis” (ou Trabants, os carros típicos do lado oriental) que chegavam para Berlim Ocidental (a capitalista). E eles vieram numa espécie de corso improvisado, piscando os faróis e caprichando na buzina, em meio à ovação do público que os saudava, muitas pessoas com bandeira em punho. Os alemães estavam se permitindo outra vez terem orgulho de si mesmos, sem medo de serem mal entendidos; naquele momento pareciam querer resgatar da História o sentimento, por tanto tempo deturpado ou sufocado, de unidade, de nação. Enquanto o concreto armado caía, o povo catava nos caquinhos os restos da sua identidade.


No dia seguinte, a cidade estava em festa, eletrizada pelos novos acontecimentos, que continuaram se sucedendo numa velocidade estonteante, e em 22 de dezembro o Portão de Brandemburgo foi finalmente aberto para os pedestres. Desde a retirada do primeiro bloco, contudo, o Muro começou a ser “pulverizado” pelos martelos e picaretas da população, como para “agilizar” o resto do processo da queda, passando logo para um novo status: o de souvenir apaixonadamente disputado, que poderia ser adquirido (no início) ou comprado (depois). Até hoje é possível encontar nas feiras e brechós pequenos pedaços do Muro, que o vendedor jura de pé junto ser original, mas depois de 20 anos, quem acredita? Eu também tenho o meu pedaço em casa, originalíssimo, ainda com pintura e ferro retorcido, que ajudamos a retirar com muito trabalho, no morno da hora. Da mesma maneira foram adquiridos os que eu levei para o Brasil e dei de presente a algumas amigas. Espero que elas tenham reconhecido o valor histórico da lembrança e não tenham jogado aquelas “pedrinhas” no lixo, logo em seguida.

Depois da festa vem a ressaca. Assim poderíamos resumir o sentimento que foi tomando conta da população nos meses subsequentes. Talvez porque ela começou a ver que o ônus financeiro para reerguer o lado de um país que estava “caindo aos pedaços” seria maior ainda do que o previsto e que isso iria significar um rombo considerável nas suas economias, ou talvez porque o mesmo povo, há tanto separado, tenha adquirido hábitos e pontos de vista completamente diversos, fato é que a hostilidade começou a tomar corpo e a crescer entre os dois “tipos” de alemães: os ocidentais (chamados de “wessis”) e os orientais (os “ossis”). E o fosso entre eles foi se tornando mais profundo. As pessoas oriundas da antiga DDR eram vistas como uma espécie de parente pobre, que um tem a boa vontade de ajudar no início, mas com o passar do tempo vê que isso tornou-se um estorvo e um peso no orçamento. As anedotas e piadas pipocaram e alguns mais exaltados reclamavam pelo retorno do muro “dez metros mais alto”. Era o muro psicológico que ainda precisava cair.


E esse levou muito mais tempo, foi tombando aos poucos e, mesmo assim, ainda hoje nos deparamos com “pedaços” dele, aqui e ali. Mas os anos foram passando, aplainando a maioria das animosidades, uma nova geração (essa sim, unificada) foi surgindo, crescendo e tomando o seu lugar na sociedade, o lado oriental foi saindo lentamente do borralho e ganhando os contornos do brilho e da pompa que a população e os turistas do mundo inteiro veem resplandecer em suas ruas, fachadas e monumentos. E hoje temos, além de uma Alemanha, uma Berlim unida e modificada. Aquela cidade caindo pelas bandas cedeu lugar a uma metrópole moderna, com ares cosmopolita. E isso é, com algumas exeções, orgulho de todos. Deu trabalho, foi caro, foi duro, demorou, mas valeu: Berlim é única, Berlim é maravilhosa. Berlin ist in! Um brinde a essa magnífica cidade!!! E parabéns, Alemanha, por esse dia.

Fotos: 1ª, a multidão em cima do Muro. A faixa diz "Alemanha, pátria unificada" (dpa); 2ª, cena típica da época: o povo em cima do Muro (dpa); 3ª, a chegada dos primeios "trabis" (FR-online.de); 4ª, com martelos e picaretas, aos poucos o resto do Muro vem abaixo (dpa); 5ª, comemoração pelos 20 anos de queda do Muro (Guelland, ddp).

6 ♫ abriram o bico ♫:

Tathi disse...

Que texto fantástico Zilma. Deve ter sido muito interessante fazer parte da história dessa forma, presente, sentindo todas as emoções da reunificação e não apenas assistindo pela televisão e tentando imaginar a emoção que cada um deve ter sentido. Parabéns a Berlim e a Alemanha por essa data.
Beijos

Zilma disse...

É, Tathi, foi maravilhoso ver todos esses acontecimentos de perto, sentir a presença da História em cada esquina, saber que ali, diante dos meus olhos embasbacados, uma página da Humanidade estava sendo escrita. Sou grata por esse experiência. Berlim me toca muito especialmente. Foi um amor à primeira vista e, com o passar do tempo, esse laço só foi se aprofundando. Sim, e ela (bem como toda a Alemanha) está de parabéns por esse dia. Se bem que essa data foi um presente para todos nós, que acreditamos no valor da liberdade. Beijos.

Mi disse...

nossa, deve ter sido realmente impressionante estar em berlin na hora em que o muro foi derrubado. Vc viveu um grande momento da historia na pele ;) Espero que o preconceito e as diferencas diminuam com as novas geracoes. bjs!

Zilma disse...

Oi, Mi

Foi um momento inesquecível, pelo qual tenho grande carinho e respeito. E um presente poder tomar parte do desenrolar desses acontecimentos. Bjs.

Cristhiane disse...

Eu ainda tenho a minha pedrinha e guardo com muito cuidado. Um momento histórico como este, não poderia jamais ser jogado no lixo, né amiga? Obrigada por ter trazido um pedaço do muro para mim. significou muito.
beijos mis.
Kitty

Zilma disse...

Você por aqui, mas que boa surpresa! Fico feliz também por saber guardou a lembrança. É, minha amiga, "aquela pedrinha" é um grande momento histórico no fundo da sua gaveta. E vai lhe contar maravilhas todas as vezes que você olhar para ela. Beijo grande.