quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Julgamento tardio


O senhor da foto acima chama-se Kurt Gutmann, tem 82 anos de idade e mora há muito tempo no bairro de Friedrichshain, aqui em Berlim. Apesar da saúde bastante debilitada, ele viajou para Munique, a capital do estado da Baviera, que se localiza no outro extremo do país, a fim de depor, com mais outras vinte pessoas, no último (provavelmente) grande julgamento na Alemanha que se ocupa em esclarecer os horrores praticados pelos nazistas quando eles estavam no poder. O acusado é o ucraniano John Demjanjuk, nascido em 1920 como Iwan M. Demjanjuk, que 64 anos após o término da 2ª Guerra, está sendo acusado de colaborar na morte de 27 900 judeus, quando era carcereiro do campo de concentração de Sobibor, na Polônia. Esse é apenas o número das pessoas mortas entre março e setembro de 1943. No ano e meio que o campo funcionou, 250 mil judeus foram brutalmente “eliminados”.


Kurt Gutmann tinha na época 12 anos e escapou do holocausto por um fio. A mãe dele, que era judia, mandou-o com o irmão mais novo para Glasgow, na Escócia. Ela, que estava criando os filhos sozinha, não teve dinheiro para a passagem de toda a família e foi obrigada a ficar com o filho mais velho. Os dois foram deportados para Sobibor e lá morreram numa das câmaras de gás, em 1943. E o carcereiro? Quando a guerra terminou ele (o homem da foto acima) se mandou com a mulher para os EUA, onde viveu até então. Mas já em 1988 recebera a setença de morte em outro processo que o acusava de ser “Ivan, o terrível”, o guarda penitenciário sádico que maltratava impiedosamente os presos do campo de concentração de Treblinka. Por conta disso, ele perdeu inclusive a cidadania americana. A pena, contudo, foi cancelada em 1993, quando ficou comprovado que Demjanjuk fora confundido com um outro (terrível) Ivan. Só que os juízes de então já tinham provas do seu envolvimento em Sobibor.


Em 2002 vieram a público novos documentos que o comprometiam ainda mais e ele perdeu outra vez a cidadania americana. O processo, no entanto, arrastou-se por todo esse tempo e apenas em maio deste ano Demjanjuk foi mandado para a Alemanha. Independente de como será a setença, ele não vai viver tanto para cumpri-la até o fim. Para isso, esse processo chegou tarde demais. Mas para os sobreviventes de Sobibor e familiares das pessoas mortas na época o julgamento representa, mesmo assim, uma pequena compensação. “No momento que se torna quase legítimo negar o holocausto, o que importa é que as pessoas saibam da verdade”, enfatiza Gutmann. Para ele, o que restou da sua família foram as poucas fotos em preto e branco que cabem num envelope. E na alma, o que não se vê: uma imensa cicatriz que vai acompanhá-lo até o túmulo.

Mais sobre o tema aqui

Fotos: 1ª (B.Z.), Kurt Gutmann, sendo entrevistado em seu apartamento, em Friedrichshain; 2ª (internet) o antigo carcereiro John Demjanjuk numa foto recente; 3ª (internet), judeus chegando no campo de concentração de Sobibor.

2 ♫ abriram o bico ♫:

Tathi disse...

É uma pequena que muitos "mandantes do agora "inexistente" holocausto" tenham morridos impunes e esquecidos.
Bjs
Tathi

Zilma disse...

Oi, Tathi

Diria que isso é uma vergonha. Pior ainda foram aqueles casos onde alguns peixes grandes chegaram a enfrentar um julgamento, mas foram colocados em liberdade "por falta de provas concludentes". Aí já passa a ser um escândalo. Bjs.