quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A maestria do presente


Meu filho está completando 15 anos e eu estou na maior indecisão quanto aos presentes. Aliás, escolher o que comprar e dar o presente certo, é um capítulo à parte e já me rendeu algumas histórias, pois a boa vontade às vezes pode ser apenas um chute para fora da área. Só ela não basta, aprendi isso por vias tortas. Aqui em casa, sempre procurei seguir a regra básica de me basear pelo desejo do que o meu filho quer ganhar. Até aí, tudo bem e correto. Mas lembro que desenvolvi por uma época uma neurose muito peculiar: a “neurose do útil”. E com ela, habilitei-me numa tendência de dar presente “flop” – aquele mesmo que um recebe com um riso forçado, enquanto pensa “nossa-senhora-o-que-é-isso?” e depois vê que a melhor coisa a fazer com “aquilo” é esquecê-lo em algum canto.

Quando o meu filho era menor, teve que enfrentar a minha fase de dar presentes fantásticamente pedagógicos, só que um ou outro, sou obrigada a reconhecer, foi tão aborrecido quanto um bocejo. Mas ainda bem que se salvavam os livros. E ele adorava receber meus livros (como ele gosta muito de ler, até hoje é um ítem que não pode faltar). No mais, quando o meu presente falhava, corria com os olhos brilhantes para os do pai, sempre pouco pedagógicos, porém maravilhosos, coloridos, infantis. Tá. Quando eu não conseguia me desgrudar da idéia de que pelo menos UM presente tinha que ser razoável – e esse “UM presente razoável” não era bem escolhido – o ponto ia só pro pai.


Mas certa vez que escolhemos os presentes, furamos os dois. Foi um fracasso duplo. Finalmente um 1×1! Pelo menos UMA vez fiquei acompanhada na hora do muxoxo. O meu presente (fora livros e livros) foi, pra variar, impecavelmente educativo: um jogo para computador chamado Opera Fatal – que ensinava, através de um labirinto de pistas, charadas e enígmas, dados sobre harmonia, compositores e instrumentos de várias épocas. Como meu filho aprende piano clássico e gosta do gênero musical, achei que tão interessante jogo seria a nota que faltava. E teria sido de fato, se eu o tivesse comprado na época do seu lançamento, uns 5 anos antes e para um filho beeem mais jovem. Quando eu o presenteei, foi uma desafinada: o gráfico já pertencia à pré-história e o meu menino havia crescido. Resultado: meu filho agradeceu com um sorriso educado, antes de amofumbá-lo no mais profundo da gaveta, como quem diz “longe-de-mim-com-essa-coisa”.

Foi aí que entrou o pai na história, sorridente, abafando como sempre, que o seu presente, sim, iria salvar a situação. E a princípio, com aquela caixona, parecia mesmo. Quando o meu filho abriu, ó decepção! Era um carro!!! Melhor, um carrão da playmobil technik (aqueles para montar), que teria deixado em delírio qualquer garoto, inclusive ele, antes, sem dúvida, mas não um adolescente de olho crescido nas meninas. Que vergonha!!! O rapazinho já querendo namorar e brincando de carrinho!!! Foi aí que meu filho resolveu romper o silêncio diplomático para deixar claro a esses dois tapados (nós) a realidade evidente: “Olha aqui, não tenho nada contra o presente de vocês, mas para uma outra idade. EU CRESCI, GENTE!!! Será que vocês não percebem???” E abriu a boca num discurso, esse sim, bastante ponderável, que os pais não devem ver o crescimento dos filhos como catástrofe afetiva, mas como um processo absolutamente natural, e que é importante deixá-los crescer e blá, blá,blá. Eu, que me policio tanto nesse sentindo, senti-me uma boboca. Pior: uma-boboca-desinformada-lesinha-da-silva. O pai ficou por ali, no “mas-mas”, tentando ajeitar, sem sucesso, o estrago, pois tudo o que ele sabia dizer era que o carro era bacana, mesmo. Deu uma gagueira no juízo.


Hora de crise é hora de compromisso, né? Ganhou o filho. Para ninguém precisar repetir a leseira de comprar um presente inútil, ele é quem nos orienta hoje em dia sobre o que quer ganhar. Acabou-se, por pena, o fator surpresa, que foi substituído pela negociação dos desejos dele (dentro das nossas possibilidades) e pelo aumento das (nossas) dúvidas. Mas para felicidade geral: fiquei curada da neura educativa e o pai da miopia das evidências. Já estava em tempo! E assim vamos vivendo.

Imagens: http://www.fotosearch.com.br/

4 ♫ abriram o bico ♫:

Tathi disse...

Passei pra dizer olá e que adorei o texto.
Beijos
Tathi

Jam disse...

Priminha isso é tipo super normal. Eu, no auge dos meus 14 aninhos já passei por diversas situações parecidas. Mas no meu caso o natal é a fase com maior margem de erro para presente, geralmente eu sempre ganho um presente igual ao da minha sobrinha (detalhe não temos NADA haver uma com a outra). Algumas pessoas perguntam o que eu quero e eu digo "não precisa" ou "qualquer coisa", mas quando eu digo qualquer coisa eu me refiro a alguma coisa que tenha haver comigo, no meu estilo e não uma blusa verde limão abarrotada de florzinhas pink (isso já aconteceu).
Bjs Adoro o seu blog e parabéns pro priminho!!

Zilma disse...

Oi, Tathi

É tão bom saber que você passou por aqui. Um grande beijo!

Zilma disse...

Minha prima querida, receber uma blusa verde limão com florzinhas pink não é fácil. Isso exige de uma boa vontade imensa para se pendurar um sorriso desbotado de agradecimento. Sim, porque numa hora dessas, só dá vontade de sair correndo ou abrir o berreiro com gosto. Tem presente que dói. Meu filho que o diga! Obrigada pelo elogio ao blog. Vou dar o parabéns ao seu primo. Beijos para você!