Berlim e suas histórias. Baixou um santo natalino na Secretaria de Trânsito da cidade (a famosa BVG) e ela achou que provavelmente estava tendo uma inspiração divina quando resolveu soltar pelos alto-falantes da estação de metrô Adenauerplatz (linha 7), no bairro de Charlottenburg, a arte mais celestial que pode haver nesse planeta: música clássica genuína. No início, alta, bem alta, para não restar dúvida de que mesmo aqueles ameaçados de surdês também iriam ouvir. Mas depois que os comerciantes da parada reclamaram, o volume está sendo mantido mais baixo. O motivo desse achaque cultural, que está sendo aplicado a nível de teste até janeiro, vem de um exemplo inusitado: a BVG espera espantar, com isso, como aconteceu em Hamburgo e Munique, os junkies e dealers de droga. Dizem que nessas duas cidades a medida funcionou, pois essas criaturas ficaram tão enervadas pelos sons das harpas e violinos, que passaram a evitar as estações de metrô.

E em Berlim? Aqui a coisa até poderia engatar também, se a BVG tivesse tido o bom senso de escolher as linhas certas para isso. Mas não. Resolveu fazer o teste logo em Charlottenburg, um bairro tradicionalmente burguês, e o resultado é uma campanha com alvos inexistentes: estão faltando justamente os junkies e os dealers. Procurar por eles nessa parada é perda de tempo, já que não se encontra a alma viva de nenhum pela redondeza. A BVG, claro, sabe disso e sua porta-voz, Petra Reetz, explicou a medida assim: “Infelizmente, as possibilidades técnicas só podem ser aplicadas no momento aqui (leia: onde não tem nada, nada se faz). Além disso, analisamos se a música influi positivamente a atmosfera do metrô”. Eis o “x” da questão, pois é onde as opiniões se dividem. Para os passageiros amantes de música clássica, a medida foi prontamente aprovada: é agradabilíssimo esperar pelo próximo metrô ao som de alguma ária. Mas para os negociantes da estação, com gosto musical diferente, a resposta é outra.

Para eles, a ladainha sonora que são obrigados a ouvir diariamente serve apenas para espantar a clientela, não os dealers – além de enervá-los. Alguns, quando ficam de saco cheio com tantas sinfonias e óperas, decretam uma guerra musical ao ambiente. É quando as canções turcas passam a brigar com Mozart e Bach, produzindo uma tal poluição sonora, que o passageiro desprevinido chega a pensar que errou de endereço e entrou numa feira ou num bazar barulhento. Se continuar assim, talvez a BGV, por vias indiretas, atinja seu objetivo: não vai aparecer nenhum dealer porque não vai sobrar um pé de pessoa. Quem não é surdo e ainda tem juízo, vai começar a evitar essa parada, ou só se aventurar por ela com possantes protetores nos ouvidos. E aí o negócio vai estar feito para os ladrões, que apenas esse ano já assaltaram as lojinhas da estação por duas vezes. Mas se aqui a música também conseguir resolver, aí a BVG pode patentear o milagre, que o resto do mundo copia de bom grado.
Mais sobre o tema: bild.de e tagesspiegel.de
Fotos: Todas da parada de metrô Adenauerplatz. 1ª, bild.de; 2ª, flickers - Aqcthoms; 3ª, Uwe Heinrich.
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