sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A polêmica do quadro


A imagem acima é a de um quadro que pertence ao acervo das fábulas berlinenses. Ou o exemplo mais bem acabado de quando a arte vira um negócio. Ele passou mais de 10 anos pendurado num local chamado Piano Bar, na Kantstraße (rua Kant), no bairro de Charlottenburg, até ser leiloado no último mês pela Christie´s, em Londres, pelo valor estonteante de 2,5 milhões de euros. Mas até o quadro ser batido no pregão por um colecionador americano como o mais caro trabalho do artista alemão Martin Kippenberger (1953-1997), rolou uma história curiosa e cheia de facetas, como muitas a colorir o mosaico dessa cidade. O Piano Bar ficou famoso por ter reunido os intelectuais, as celebridades locais e aquelas que estavam de passagem por Berlim, em noitadas badaladas regadas a bons vinhos, servidos por garçons que falavam francês. Antes que essas aves do paraíso partissem em revoada para as bandas de Mitte (Centro), deixando o proprietário vendendo os pertences para fugir da insolvência, era possível ver nomes de peso internacional esquetando as cadeiras do ambiente: Robert de Niro, Madonna, Jack Nicholson, David Bowie, apenas para citar alguns deles.



Martin Kippenberger, um artista tido por genial e boêmio de carteirinha que morreu há 12 anos, era frequentador assíduo do local. Certo dia fez um deal com o dono, que era seu amigo: pintaria um megaquadro para o bar e de volta seria dispensado por toda a vida de pagar a conta. O negócio foi fechado e pouco depois ele apresentou uma tela gigante, de 2,07 por 3,8 metros, onde se via primorosamente detalhado o interior ainda vazio do lugar, como se fosse uma fotografia daquele momento exclusivo do proprietário que passa a última vista pelo ambiente antes de abri-lo para o público. Frequentadores do Piano Bar não se cansavam de elogiar o trabalho, que ficou mesmo magnífico. O que não é bonito é um fato apresentado em minúcias pela revista Spiegel e pelos jornais locais nos últimos dias: quem pintou o quadro não foi Kippenberger, ele apenas emprestou o seu nome à obra.


Kippenberger, talvez para se safar do incômodo da tarefa, pegou um atalho vantajoso para si: o encomendou a um artista desconhecido, que ganhava a vida pintando cartazes para os cinemas locais: Götz Valien, um austríaco morando em Berlim. E Valien, que acabara de formar uma família, executou o trabalho de boa vontade, por mil marcos (o dinheiro da época, início da década de 90, equivale a cerca de 400 e poucos euros). Só que não com tinta à óleo, como esclarece o certificado de autenticidade oferecido pela Christie´s, mas sim com tinta diluída para fachada – e colocou a sua assinatura de forma bem discreta, em 3 lugares estratégicos, embora quase imperceptíveis. Algum tempo depois, Kippenberger pediu que ele fizesse um segundo trabalho, igualzinho ao primeiro, com a diferença de que esse teria o próprio quadro figurado entre as pinturas da parede do bar, quer dizer, mostrando o quadro dentro do quadro. Por esse trabalho, que foi para Paris para o Centre Pompidou, Valien cobrou o dobro do preço.


Essa história já tinha sido narrada há alguns anos por uma revista de arte, mas na época ninguém deu muita atenção. Agora, com o quadro “Paris Bar” atingindo preço exorbitante e catapultando Kippenberger para a esfera dos artistas alemães mais caros, o interesse é maior. Se bem que o caso, ao que tudo indica, não terá consequências. Kippenberger está morto e a Christie´s não confirmou o fato. Através de um porta-voz, disse apenas que “todos que participaram da ação teriam que ter bem claro que Kippenberger encomendava quadros com frequência”. Pagar barato para outros fazerem seu trabalho e ele só precisar colocar o nome, curtir a preguiça e ganhar os louros, parecia fazer parte do seu princípio artístico. E Götz Valien? Ele tem agora 49 anos, é pai de dois filhos, continua pintando cartazes e ainda reside em Berlim, não recebeu um centavo dos milhões pela venda do quadro, nem um pingo de reconhecimento por sua obra, mas vê o caso com leveza. “Eu pintei o Kippenberger mais caro”, disse divertido. E falou que talvez faça um terceiro quadro. Só que, para evitar o plágio, vai mudar os quadros dentro do quadro. Seria recomendável ainda uma assinatura grande, bem visível. Talvez assim esse tenha a sua autoria reconhecida.

Mais sobre o asunto (em alemão):
Spiegel.de
rbb-online
Bild.de

Fotos: 1ª (dpa) o quadro da polêmica:"Paris Bar"; 2ª e 3ª (internet) a fachada do Paris Bar na Kantstraße e o local por dentro; 4ª (internet) Martin Kippenberger em 1986; 5ª (Bild.de), Götz Valien ao lado do "Paris Bar", o quadro que acabara de pintar guiando-se por uma fotografia, no início da década de 90. "

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Caos × Vírus


Em Berlim, como em toda Alemanha, começou a segunda etapa da vacinação em massa contra a gripe suína, uma campanha de prevenção que tem deixado a sociedade “com febre”. Desde que a campanha foi engatada na cidade, no final de outubro, as críticas se espalharam com mais força do que os espirros. Primeiro, porque foram confeccionados dois tipos de vacina: uma para a população, com algumas substâncias supostamente tóxicas em seu componente, e outra para os políticos, médicos, bombeiros, etc, sem essas químicas. Veio a primeira leva de insatisfação. O que é isso? Vacinas diferentes para a primeira e a segunda classe? De jeito nenhum! A população fincou pé e, desconfiada, deu meia volta no caminho para o consultório médico.

E o governo foi ainda criticado por ter deixado a desejar em propagandas de esclarecimento para reverter o estrago. Mesmo assim foi explicado, nos meios de comunicação de massa, que não havia vacina pior ou melhor, apenas os laboratórios é que foram diferentes – e como se tinha pressa na confecção do produto em grande quantidade e rapidamente, o governo optou pelo laboratório que prometeu cumprir o pedido num prazo mais curto (o dos “venenos”). Certamente contou na escolha uma tradição amplamente arraigada no país: a pechincha. A firma com as substâncias “venenosas” foi a que venceu a concorrência, oferecendo a confecção em grande escala da vacina de forma mais barata. Pois é, o governo cresceu os olhos só no preço e esqueceu de dar uma olhada na química que seria usada.



Depois foram os médicos a rodarem a baiana e ameaçarem boicotar a campanha se não recebessem uma porcetagem extra pela aplicação das vacinas. Mas onde é que estamos? Isso aqui é o primeiro mundo e de graça, no primeiro mundo, nem injeção no braço! O governo negou-se a pagar e o conflito escalou: a vacinação em massa começou a engasgar. Ficou assim, nesse chove-não-molha, até serem recrutados os médicos voluntários: em Berlim, 200 para uma população com mais de 3 milhões de pessoas! Enquanto isso, o vírus andava solto, infestando sem piedade quem via pela frente. Foi quando aconteceu a primeira morte em decorrência da gripe (e nenhuma por conta da vacina). Funcionou para deixar os berlinenses com os cabelos em pé. De repente, um monte de gente quis se vacinar. Os consultórios ficaram cheios de pretendentes a uma boa espetada.

Aí, para não fugir à tradição caótica da cidade (mas isso está acontecendo em toda Alemanha) – faltou a vacina! E o que se tem na ordem do dia: pacientes frustrados e médicos com as mãos na cabeça, sem saber o que fazer, pois precisam esperar semanas por uma nova remessa. Como isso só vai começar a se normalizar – talvez – a partir de dezembro, quem não for do grupo de risco será obrigado a acompanhar o desfecho de uma maratona inusitada: a corrida do caos contra o vírus. Até agora, em rapidez, o caos está ganhando disparado. E se continuar com essa velocidade, vai ter mais gente morrendo infartada pela raiva e pelo estresse que ele está trazendo, do que de gripe suína. E para o caos não há vacina.

Fotos: 1ª, ddp; 2ª, Kurier.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

As duas faces de uma data



Com certeza todos vocês devem ter visto na televisão, através do noticiário ou de algum documentário, histórias e imagens sobre a queda do Muro, bem como as celebrações ocorridas em Berlim, que foram muitas. Vários países, inclusive, também comemoraram a data de forma bastante carinhosa e comovente. O 9 de novembro é, sem dúvida, um dia especial não só (embora principalmente) para a Alemanha, como também para o mundo, por representar um divisor de águas, portas que foram abertas à liberdade, indicando um caminho a ser traçado por uma população à cata de sua própria identidade. É uma data forte, mas poralizada, pois trouxe profundas transformações para este país, tanto para o bem, como para o mal. A queda do Muro é apenas o lado bom da moeda. Mesmo no meio de toda a euforia dos festejos, é importante não esquecer que, se recuarmos um pouco no tempo, esse dia vai aparecer outra vez na história da Alemanha com uma conotação bem diferente, dessa vez macabra: foi uma espécie de marco zero do início do terror, da perseguição e do aniquilamento de milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler.


Em 9 novembro de 1938, agentes nazistas à paisana engataram uma marcha horrorosa no país (mas também na Áustria), que ficou conhecida como a “Noite dos Cristais” (o nome deve-se aos vidros das vitrines e janelas espatifados nas ruas). Mataram judeus, incendiaram sinagogas, destruíram e saqueram lojas, residências e até cemitérios judaicos e iniciaram o confinamento de membros da comunidade em campos de concentração. Como justificativa a esses atos de violência extrema, usaram um fato que ocorrerra 2 dias antes em Paris: o assassinato de Ernst von Rath, um diplomata alemão, por Herschel Grynszpan, um judeu de apenas 17 anos, um adolescente. Um crime selando oficialmente a discriminação e a perseguição sistemática de todo um povo; a morte de um indivíduo culminando com o Holocausto. Na verdade os dois, morto e criminoso, servindo de isca para um plano diabólico de Hitler: usar os judeus como bode expiatório, acusados pela responsabilidade de todas as mazelas da época. E no final, promover o aniquilamento de 6 milhões deles, confirmando assim a sua política de limpeza étnica.

Enquanto o mundo festejava (com razão!) esse 9 de novembro como os 20 anos da queda do Muro, membros da comunidade judaica alemã promoviam cerimônias em suas sinagogas por várias cidades do país, para lembrar que há 71 anos, no mesmo dia, foi dado o pontapé inicial para o genocídio. Os dois lados de uma moeda de como a História desfecha os fatos; a luz e a sombra de uma única data: uma, unindo e libertando os povos, outra, separando e dizimando – alegria inebriante ou dor dilacerante nas lembranças; reencontro, início e novos horizontes para uns, desterro, confinamento, separação, perda e morte para outros. Dois pratos desiguais na balança do Destino. Dois momentos ímpares que se afastam lentamente do Hoje ao encontro da Eternidade. A cada 9 de novembro a História volta a tocar a sua música, mas reparem que as notas que compõem o hino de júbilo são as mesmas para a marcha fúnebre. E os nossos ouvidos, também um par, podem ouvir – e distinguir – ambas, pedindo aos céus para que nunca, mas nunca mesmo, o lado de sombra se repita.

Mais sobre o tema:
Em português
http://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_dos_cristais
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,672173,00.html http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=416&p=0

Em alemão
http://de.wikipedia.org/wiki/Novemberpogrome_1938

Fotos: 1ª (ap) Berlim em festa, nas comemorações dos 20 anos de queda do Muro, em frente ao Portão de Brandemburgo; 2ª (dpa), estrela de Davi no outono, uma alusão à data; 3ª (internet), a sinagoga de Hanover sendo consumida pelas chamas na Noite dos Cristais de 1938; 4ª (internet), essa foto me incomoda há uma longa data, embora até hoje desconheça a sua autoria. Ela foi tirada no(s) dia(s) subsequente(s) da Noite dos Cristais. Reparem o cinismo dos transeuntes, ante os vidros espatifados e as lojas saqueadas dos judeus. Um clique na crueldade da época.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A queda do Muro, uma retrospectiva


Hoje completa 20 anos da queda do Muro. Já faz tanto tempo que moro nessa Alemainha” que poderia acender também umas velinhas e comemorar junto esse jubileu. Mas, relembrando essa época: residíamos em Berlim há poucas semanas e naquele gelado 9 de novembro tomamos parte, meu (ex-)marido e eu, da multidão trêmula de frio e de emoção, que esperava ansiosa na Bornholmer Straße, no lado ocidental, pela remoção autorizada do primeiro bloco do Muro. Palavras de ordem, júbilo, confraternização, aplausos, risos e lágrimas marcaram as primeiras horas da tão esperada “liberdade”. A Reunificação dava os seus passos decisivos na História pacificamente, evitando orientar-se por exemplos macabros, como o banho de sangue na Praça da Paz Celestial, na China, meses antes, quando o levante popular foi brutalmente sufocado pelo governo. A queda do Muro de Berlim mostrou para a Humanidade que é possível reverter estruturas rígidas e pôr em curso transformações profundas de modo soberano, pela pressão e vontade do povo, mas sem armas.


De lá, fomos para o Checkpoint Charlie (anteriormente a mais famosa fronteira entre as duas partes da cidade) ver e aplaudir com a multidão eufórica, os primeiros “Trabis” (ou Trabants, os carros típicos do lado oriental) que chegavam para Berlim Ocidental (a capitalista). E eles vieram numa espécie de corso improvisado, piscando os faróis e caprichando na buzina, em meio à ovação do público que os saudava, muitas pessoas com bandeira em punho. Os alemães estavam se permitindo outra vez terem orgulho de si mesmos, sem medo de serem mal entendidos; naquele momento pareciam querer resgatar da História o sentimento, por tanto tempo deturpado ou sufocado, de unidade, de nação. Enquanto o concreto armado caía, o povo catava nos caquinhos os restos da sua identidade.


No dia seguinte, a cidade estava em festa, eletrizada pelos novos acontecimentos, que continuaram se sucedendo numa velocidade estonteante, e em 22 de dezembro o Portão de Brandemburgo foi finalmente aberto para os pedestres. Desde a retirada do primeiro bloco, contudo, o Muro começou a ser “pulverizado” pelos martelos e picaretas da população, como para “agilizar” o resto do processo da queda, passando logo para um novo status: o de souvenir apaixonadamente disputado, que poderia ser adquirido (no início) ou comprado (depois). Até hoje é possível encontar nas feiras e brechós pequenos pedaços do Muro, que o vendedor jura de pé junto ser original, mas depois de 20 anos, quem acredita? Eu também tenho o meu pedaço em casa, originalíssimo, ainda com pintura e ferro retorcido, que ajudamos a retirar com muito trabalho, no morno da hora. Da mesma maneira foram adquiridos os que eu levei para o Brasil e dei de presente a algumas amigas. Espero que elas tenham reconhecido o valor histórico da lembrança e não tenham jogado aquelas “pedrinhas” no lixo, logo em seguida.

Depois da festa vem a ressaca. Assim poderíamos resumir o sentimento que foi tomando conta da população nos meses subsequentes. Talvez porque ela começou a ver que o ônus financeiro para reerguer o lado de um país que estava “caindo aos pedaços” seria maior ainda do que o previsto e que isso iria significar um rombo considerável nas suas economias, ou talvez porque o mesmo povo, há tanto separado, tenha adquirido hábitos e pontos de vista completamente diversos, fato é que a hostilidade começou a tomar corpo e a crescer entre os dois “tipos” de alemães: os ocidentais (chamados de “wessis”) e os orientais (os “ossis”). E o fosso entre eles foi se tornando mais profundo. As pessoas oriundas da antiga DDR eram vistas como uma espécie de parente pobre, que um tem a boa vontade de ajudar no início, mas com o passar do tempo vê que isso tornou-se um estorvo e um peso no orçamento. As anedotas e piadas pipocaram e alguns mais exaltados reclamavam pelo retorno do muro “dez metros mais alto”. Era o muro psicológico que ainda precisava cair.


E esse levou muito mais tempo, foi tombando aos poucos e, mesmo assim, ainda hoje nos deparamos com “pedaços” dele, aqui e ali. Mas os anos foram passando, aplainando a maioria das animosidades, uma nova geração (essa sim, unificada) foi surgindo, crescendo e tomando o seu lugar na sociedade, o lado oriental foi saindo lentamente do borralho e ganhando os contornos do brilho e da pompa que a população e os turistas do mundo inteiro veem resplandecer em suas ruas, fachadas e monumentos. E hoje temos, além de uma Alemanha, uma Berlim unida e modificada. Aquela cidade caindo pelas bandas cedeu lugar a uma metrópole moderna, com ares cosmopolita. E isso é, com algumas exeções, orgulho de todos. Deu trabalho, foi caro, foi duro, demorou, mas valeu: Berlim é única, Berlim é maravilhosa. Berlin ist in! Um brinde a essa magnífica cidade!!! E parabéns, Alemanha, por esse dia.

Fotos: 1ª, a multidão em cima do Muro. A faixa diz "Alemanha, pátria unificada" (dpa); 2ª, cena típica da época: o povo em cima do Muro (dpa); 3ª, a chegada dos primeios "trabis" (FR-online.de); 4ª, com martelos e picaretas, aos poucos o resto do Muro vem abaixo (dpa); 5ª, comemoração pelos 20 anos de queda do Muro (Guelland, ddp).

domingo, 8 de novembro de 2009

"Berlim, você é maravilhosa!"


"Berlim, você é maravilhosa!"

Foram as palavras ditas nessa quinta-feira por Bono, o vocalista da banda de rock irlandesa U2, na abertura do show do grupo por ocasião de uma das comemorações pelos 20 anos da queda do Muro. Cerca de 10 mil pessoas estavam a postos, em frente ao Portão de Brandemburgo, para ouvir as palavras elogiosas e, claro, o curto concerto, de apenas 6 músicas. Vale salientar, numa noite outonal fria, castigada por uma chuvinha gelada, untuosa, já com cara de neve.


Mas, fazer o quê, se o Muro caiu justo num mês de temperatura tão desagradável? Claro que teria sido melhor se tivesse sido no verão, com boa vontade, até no finalzinho da primavera ou bem no início do outono, quando a temperatura se mantém dentro do humanamente suportável. Mas não, a História quis diferente, não pensou em datas e pés congelados, e o resultado é esse: a cada aniversário (pelos menos os redondos, de cinco em cinco anos) a multidão precisa assistir aos concertos batendo os dentes, esfregando as mãos e rezando para que não chova. Porque aí, sim, a desgraça está feita: com os casacos empapados, o gelo é de morte – literalmente. Mas poderia ter sido pior, se o Muro tivesse vindo abaixo num mês ainda mais frio: janeiro, por exemplo.


Só que os berlinenses (reza o folclore que são todos os que moram nessa cidade há mais de 3 meses) enfrentam de bom ânimo qualquer tempo ruim por uma oportunidade dessa: assistir a um concerto grátis. Essa palavra mágica – grátis!tem o dom de juntar rapidamente multidões, independente do humor do termômetro. É mais forte, inclusive, do que a atração exercida pela palavra "liquidação", outro ímã incontestável. Talvez porque os berlinenses sejam especialmente econômicos; talvez porque sejam festeiros por natureza; talvez por serem solidários com o "liseu" reconhecido da cidade nesse momento de crise financeira... Fato é a concordância: sim, senhor Bono, Berlim é ma-ra-vi-lho-sa, principalmente se o show é de graça. Aí, bom ou ruim, longo ou curto, o aplauso pode até está garantido.

Fotos: 1ª, os berlinenses em frente ao Portão de Brandemburgo, aguardando o início do show (dpa); 2ª, momento do show, em frente ao Portão de Brandemburgo (ddp); 3ª, U2 se apresentando (dpa).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Prêmio francês em Berlim


Os berlinenses, se quiserem, podem empunhar orgulhosos a bandeirinha da cidade. Pelo menos a nível de literatura essa metrópole está com 10. Primeiro veio para Berlim o Prêmio Nobel através da romena-alemã Herta Müller – e agora a façanha se repete com o Prinx Goncourt, o prêmio literário mais importante da França, concedido a Marie NDiaye. Ela é francesa, mas mora aqui, mais precisamente na Adenauerplatz (uma praça), esquina com a Kudamm (uma das mais famosas avenidas da cidade). Pois é, dessa vez a condecoração, para variar, ficou no burguês bairro de Charlottenburg e não em Friedenau, famoso reduto de escritores e onde Herta Müller reside.


Marie NDiaye não é uma desconhecida no meio intelectual berlinense. Há pouco, inclusive, foi encenada uma peça dela em Mitte, intitulada "Hilde" (uma história meio sombria, que conta a exploração psicológica sofrida por uma empregada doméstica pela sua patroa), mas ela não possui aqui a fama que tem em seu país. Na França NDiaye é uma "bestseller", uma escritora que tem os títulos dos livros catapultados nos primeiros lugares das listas de venda. E ela já escreveu 20 romances e novelas! O Prinx Goncourt foi concedido ao seu livro mais recente "Trois femmes puissantes" ("Três mulheres fortes"). Antes, em 2001, ela fora agraciada com outro prêmio literário, o Prix Femina. Marie NDiaye nasceu em Pithiviers, perto de Orleans, em 1967, filha de um francês (que ela só conheceu quando tinha 11 anos) e uma senegalesa.

Fotos: 1ª, a escritora agraciada Marie NDiaye ao ser entrevistada (de Lydie Sipa); 2ª, a Adenauerplatz em pleno outono(de KHMM), com a estátua de Konrad Adenauer (a praça deve seu nome a ele, que foi um importante chanceler alemão).

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A bela do Nilo


Nefertite significa para o Novo Museu de Berlim o que a Mona Lisa representa para o Louvre, em Paris: a obra de arte mais importante da coleção, o ímã que atraia e fascina multidões, o triunfo absoluto de bilheteria. O seu nome quer dizer “a mais bela chegou”, o que não constitui exagero tendo em vista os traços fenomenais do seu rosto, esculpido no busto de calcário, tido há muito como ideal de beleza – e da perigrinação que essa peça foi obrigada a enfrentar anos afora. O busto foi descoberto em 1912 por Ludwig Borchardt, um arqueólogo alemão, na cidade de Amarna, no Egito, mais precisamente, nas escavações feitas numa oficina, onde muitas peças foram elaboradas e guardadas, de um escultor que vivera há mais de 3 mil anos e trabalhara para os faraós.


O busto foi transferido posteriormente para Berlim. Aqui, no Novo Museu (o da época) ficou exposto até a eclosão da Segunda Guerra Mundial quando, por receio aos bombardeios, foi colocado em segurança nas salinas de Harz (uma cordilheira no centro da Alemanha). Depois da Guerra, os americanos se apropriaram do busto e o enviaram para Frankfurt, daí ele seguiu para o museu de Wiesbaden. Em 1956, contudo, Nefertite voltou para Berlim. Inicialmente, ficou no museu de Dahlem (um bairro) e em seguida veio para o Museu Egípcio, que na época se localizava no bairro de Charlottenburg. Com a queda do Muro e a reunificação alemã, o caminho ficou livre para a sua volta ao Novo Museu, mas como esse só tinha as paredes e por dentro era um bom amontoado de ruínas, o busto foi para o Museu Antigo e lá esperou paciente todos esses anos pelo fim da renovação do Novo Museu. Agora, depois de 70 anos e muitas idas e vindas, pode-se dizer que o busto “voltou para casa”. Já era tempo.


E quem foi ela?

Com a descoberta do busto surgiu também a curiosidade de saber quem tinha sido e se realmente vivera tão bela mulher, pois até aí ninguém ouvira nada sobre ela. Para isso, os arqueólogos escavacaram mais e mais a região e foram trazendo à tona outras peças que ajudaram a contar a história de Nefertite. Ela foi uma importante rainha egípcia da 18ª Dinastia, reinou há mais de 3400 anos e era esposa do faraó Amenófis (Amen-hotep) IV, ou ainda Akhenaton, o mesmo que fez uma drástica reforma no culto ao deuses do Egito, substituindo o politeísmo pelo monoteísmo, mais precisamente, pelo culto ao deus-sol Aton. Eles casaram bastante jovens, tiveram 6 filhas (das quais 4 morreram cedo: uma por afogamento e 3 em decorrência da malária) e foram ainda o primeiro casal real a mostrar a vida privada nas reproduções (a fotografia de então).


Existem várias teorias tentando explicar o motivo de Nefertiti, a partir de uma certa altura, não ter sido mais mencionada nas inscrições. Inicialmente pensou-se que ela fora descartada e substituída por Kia, a 2ª mulher de Akhenaton. Outra hipótese considera que Nefertiti tenha mudado de nome, passando a ser co-regente. Há ainda os que defendam que ela, ao ficar viúva, governou o Egito ainda por dois anos. E outra fonte fala da possibilidade dela ter sido assassinada pelos sacerdotes que não aceitavam o culto ao deus Aton, para desestabilizar com isso o faraó e ter de volta o politeísmo. De qualquer modo, Nefertiti e Akhenaton morreram de forma misteriosa. Em 2003 pesqisadores afirmaram terem descoberto a sua múmia, mas existem dúvidas sobre a veracidade desse fato, devido a contradição de diversos indícios.

Para saber mais, clique por favor no texto da Wikipedia, em português (o 1º) ou em alemão (o 2º):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Nefertiti
http://de.wikipedia.org/wiki/Nofretete

Fotos: 1ª, 2ª e 4ª (internet), 3ª (welt.de).