
Hoje completa 20 anos da queda do Muro. Já faz tanto tempo que moro nessa “Alemainha” que poderia acender também umas velinhas e comemorar junto esse jubileu. Mas, relembrando essa época: residíamos em Berlim há poucas semanas e naquele gelado 9 de novembro tomamos parte, meu (ex-)marido e eu, da multidão trêmula de frio e de emoção, que esperava ansiosa na Bornholmer Straße, no lado ocidental, pela remoção autorizada do primeiro bloco do Muro. Palavras de ordem, júbilo, confraternização, aplausos, risos e lágrimas marcaram as primeiras horas da tão esperada “liberdade”. A Reunificação dava os seus passos decisivos na História pacificamente, evitando orientar-se por exemplos macabros, como o banho de sangue na Praça da Paz Celestial, na China, meses antes, quando o levante popular foi brutalmente sufocado pelo governo. A queda do Muro de Berlim mostrou para a Humanidade que é possível reverter estruturas rígidas e pôr em curso transformações profundas de modo soberano, pela pressão e vontade do povo, mas sem armas.
De lá, fomos para o Checkpoint Charlie (anteriormente a mais famosa fronteira entre as duas partes da cidade) ver e aplaudir com a multidão eufórica, os primeiros “Trabis” (ou Trabants, os carros típicos do lado oriental) que chegavam para Berlim Ocidental (a capitalista). E eles vieram numa espécie de corso improvisado, piscando os faróis e caprichando na buzina, em meio à ovação do público que os saudava, muitas pessoas com bandeira em punho. Os alemães estavam se permitindo outra vez terem orgulho de si mesmos, sem medo de serem mal entendidos; naquele momento pareciam querer resgatar da História o sentimento, por tanto tempo deturpado ou sufocado, de unidade, de nação. Enquanto o concreto armado caía, o povo catava nos caquinhos os restos da sua identidade.

No dia seguinte, a cidade estava em festa, eletrizada pelos novos acontecimentos, que continuaram se sucedendo numa velocidade estonteante, e em 22 de dezembro o Portão de Brandemburgo foi finalmente aberto para os pedestres. Desde a retirada do primeiro bloco, contudo, o Muro começou a ser “pulverizado” pelos martelos e picaretas da população, como para “agilizar” o resto do processo da queda, passando logo para um novo status: o de souvenir apaixonadamente disputado, que poderia ser adquirido (no início) ou comprado (depois). Até hoje é possível encontar nas feiras e brechós pequenos pedaços do Muro, que o vendedor jura de pé junto ser original, mas depois de 20 anos, quem acredita? Eu também tenho o meu pedaço em casa, originalíssimo, ainda com pintura e ferro retorcido, que ajudamos a retirar com muito trabalho, no morno da hora. Da mesma maneira foram adquiridos os que eu levei para o Brasil e dei de presente a algumas amigas. Espero que elas tenham reconhecido o valor histórico da lembrança e não tenham jogado aquelas “pedrinhas” no lixo, logo em seguida.

Depois da festa vem a ressaca. Assim poderíamos resumir o sentimento que foi tomando conta da população nos meses subsequentes. Talvez porque ela começou a ver que o ônus financeiro para reerguer o lado de um país que estava “caindo aos pedaços” seria maior ainda do que o previsto e que isso iria significar um rombo considerável nas suas economias, ou talvez porque o mesmo povo, há tanto separado, tenha adquirido hábitos e pontos de vista completamente diversos, fato é que a hostilidade começou a tomar corpo e a crescer entre os dois “tipos” de alemães: os ocidentais (chamados de “wessis”) e os orientais (os “ossis”). E o fosso entre eles foi se tornando mais profundo. As pessoas oriundas da antiga DDR eram vistas como uma espécie de parente pobre, que um tem a boa vontade de ajudar no início, mas com o passar do tempo vê que isso tornou-se um estorvo e um peso no orçamento. As anedotas e piadas pipocaram e alguns mais exaltados reclamavam pelo retorno do muro “dez metros mais alto”. Era o muro psicológico que ainda precisava cair.

E esse levou muito mais tempo, foi tombando aos poucos e, mesmo assim, ainda hoje nos deparamos com “pedaços” dele, aqui e ali. Mas os anos foram passando, aplainando a maioria das animosidades, uma nova geração (essa sim, unificada) foi surgindo, crescendo e tomando o seu lugar na sociedade, o lado oriental foi saindo lentamente do borralho e ganhando os contornos do brilho e da pompa que a população e os turistas do mundo inteiro veem resplandecer em suas ruas, fachadas e monumentos. E hoje temos, além de uma Alemanha, uma Berlim unida e modificada. Aquela cidade caindo pelas bandas cedeu lugar a uma metrópole moderna, com ares cosmopolita. E isso é, com algumas exeções, orgulho de todos. Deu trabalho, foi caro, foi duro, demorou, mas valeu: Berlim é única, Berlim é maravilhosa. Berlin ist in! Um brinde a essa magnífica cidade!!! E parabéns, Alemanha, por esse dia.
Fotos: 1ª, a multidão em cima do Muro. A faixa diz "Alemanha, pátria unificada" (dpa); 2ª, cena típica da época: o povo em cima do Muro (dpa); 3ª, a chegada dos primeios "trabis" (FR-online.de); 4ª, com martelos e picaretas, aos poucos o resto do Muro vem abaixo (dpa); 5ª, comemoração pelos 20 anos de queda do Muro (Guelland, ddp).