terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo!


Os nove primeiros anos deste milênio não foram fáceis para o nosso planeta: terror, guerras, catástrofes naturais, pandemias, colapso financeiro... Foram anos turbulentos. Vamos tocer para que 2010 signifique uma virada para melhor e a década feche com chave de ouro. Desejo a vocês um Ano Novo cheio de esperanças, realizações dos sonhos, muita saúde e paz (também a interior). Tudo de bom!

foto: Portão de Brandemburgo (internet).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal!


Berlim voltou a ser como gosta: fria e úmida, com uma garoa maçante lambendo a cidade. A neve praticamente já derreteu e o tão propagado e esperado "Natal branco", vai ter que ficar para uma outra vez... Isso porque o mercúrio dos termômetros está em disparada escala acima, subindo aos pulos os "degraus" da temperatura. Assim, no intervalo de pouco mais de uma semana passamos de notórios 12 graus negativos para 3 positivos - e a tendência é continuar por aí. O nosso corpo que dê um "jeitinho" de se adaptar correndo à essa mudança abrupta.

Mesmo sem neve, o Natal promete ser bastante bonito. E essa temperatura, vamos e convenhamos, é mais "convidativa" para animar alguém a fazer planos de romper o Ano Novo em alguma das festas de rua.

Então, desejo a todos vocês um feliz, harmônico e alegre Natal!!!

Fotos: 1ª (ddp) o Portão de Brandemburgo com sua árvores da natal; 2ª (dpa) a avenida Kudamm com a Igreja da Memória, ao fundo; 3ª(dpa) a Unter den Linden iluminada; 4ª (Reuters) o castelo Charlottenburg; 5ª (Eventpress Hoensch) um grupo de "papais Noel" com a Torre de Televisão, ao fundo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A neve chegou!



Berlim está assim: atapetada de neve e gelaaaaaaaada. Nos últimos dias os termômetros registraram até 12 graus negativos. É bem provável que esse ano o Natal seja "branco", com um cenário bem bonito, mas frioooooooo-freezer.

Fotos: 1ª (afp) o Portão de Brandemburgo; 2ª (Thilo Rückeis) a Catedral berlinense.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A maestria do presente


Meu filho está completando 15 anos e eu estou na maior indecisão quanto aos presentes. Aliás, escolher o que comprar e dar o presente certo, é um capítulo à parte e já me rendeu algumas histórias, pois a boa vontade às vezes pode ser apenas um chute para fora da área. Só ela não basta, aprendi isso por vias tortas. Aqui em casa, sempre procurei seguir a regra básica de me basear pelo desejo do que o meu filho quer ganhar. Até aí, tudo bem e correto. Mas lembro que desenvolvi por uma época uma neurose muito peculiar: a “neurose do útil”. E com ela, habilitei-me numa tendência de dar presente “flop” – aquele mesmo que um recebe com um riso forçado, enquanto pensa “nossa-senhora-o-que-é-isso?” e depois vê que a melhor coisa a fazer com “aquilo” é esquecê-lo em algum canto.

Quando o meu filho era menor, teve que enfrentar a minha fase de dar presentes fantásticamente pedagógicos, só que um ou outro, sou obrigada a reconhecer, foi tão aborrecido quanto um bocejo. Mas ainda bem que se salvavam os livros. E ele adorava receber meus livros (como ele gosta muito de ler, até hoje é um ítem que não pode faltar). No mais, quando o meu presente falhava, corria com os olhos brilhantes para os do pai, sempre pouco pedagógicos, porém maravilhosos, coloridos, infantis. Tá. Quando eu não conseguia me desgrudar da idéia de que pelo menos UM presente tinha que ser razoável – e esse “UM presente razoável” não era bem escolhido – o ponto ia só pro pai.


Mas certa vez que escolhemos os presentes, furamos os dois. Foi um fracasso duplo. Finalmente um 1×1! Pelo menos UMA vez fiquei acompanhada na hora do muxoxo. O meu presente (fora livros e livros) foi, pra variar, impecavelmente educativo: um jogo para computador chamado Opera Fatal – que ensinava, através de um labirinto de pistas, charadas e enígmas, dados sobre harmonia, compositores e instrumentos de várias épocas. Como meu filho aprende piano clássico e gosta do gênero musical, achei que tão interessante jogo seria a nota que faltava. E teria sido de fato, se eu o tivesse comprado na época do seu lançamento, uns 5 anos antes e para um filho beeem mais jovem. Quando eu o presenteei, foi uma desafinada: o gráfico já pertencia à pré-história e o meu menino havia crescido. Resultado: meu filho agradeceu com um sorriso educado, antes de amofumbá-lo no mais profundo da gaveta, como quem diz “longe-de-mim-com-essa-coisa”.

Foi aí que entrou o pai na história, sorridente, abafando como sempre, que o seu presente, sim, iria salvar a situação. E a princípio, com aquela caixona, parecia mesmo. Quando o meu filho abriu, ó decepção! Era um carro!!! Melhor, um carrão da playmobil technik (aqueles para montar), que teria deixado em delírio qualquer garoto, inclusive ele, antes, sem dúvida, mas não um adolescente de olho crescido nas meninas. Que vergonha!!! O rapazinho já querendo namorar e brincando de carrinho!!! Foi aí que meu filho resolveu romper o silêncio diplomático para deixar claro a esses dois tapados (nós) a realidade evidente: “Olha aqui, não tenho nada contra o presente de vocês, mas para uma outra idade. EU CRESCI, GENTE!!! Será que vocês não percebem???” E abriu a boca num discurso, esse sim, bastante ponderável, que os pais não devem ver o crescimento dos filhos como catástrofe afetiva, mas como um processo absolutamente natural, e que é importante deixá-los crescer e blá, blá,blá. Eu, que me policio tanto nesse sentindo, senti-me uma boboca. Pior: uma-boboca-desinformada-lesinha-da-silva. O pai ficou por ali, no “mas-mas”, tentando ajeitar, sem sucesso, o estrago, pois tudo o que ele sabia dizer era que o carro era bacana, mesmo. Deu uma gagueira no juízo.


Hora de crise é hora de compromisso, né? Ganhou o filho. Para ninguém precisar repetir a leseira de comprar um presente inútil, ele é quem nos orienta hoje em dia sobre o que quer ganhar. Acabou-se, por pena, o fator surpresa, que foi substituído pela negociação dos desejos dele (dentro das nossas possibilidades) e pelo aumento das (nossas) dúvidas. Mas para felicidade geral: fiquei curada da neura educativa e o pai da miopia das evidências. Já estava em tempo! E assim vamos vivendo.

Imagens: http://www.fotosearch.com.br/

domingo, 13 de dezembro de 2009

Milagre musical


Berlim e suas histórias. Baixou um santo natalino na Secretaria de Trânsito da cidade (a famosa BVG) e ela achou que provavelmente estava tendo uma inspiração divina quando resolveu soltar pelos alto-falantes da estação de metrô Adenauerplatz (linha 7), no bairro de Charlottenburg, a arte mais celestial que pode haver nesse planeta: música clássica genuína. No início, alta, bem alta, para não restar dúvida de que mesmo aqueles ameaçados de surdês também iriam ouvir. Mas depois que os comerciantes da parada reclamaram, o volume está sendo mantido mais baixo. O motivo desse achaque cultural, que está sendo aplicado a nível de teste até janeiro, vem de um exemplo inusitado: a BVG espera espantar, com isso, como aconteceu em Hamburgo e Munique, os junkies e dealers de droga. Dizem que nessas duas cidades a medida funcionou, pois essas criaturas ficaram tão enervadas pelos sons das harpas e violinos, que passaram a evitar as estações de metrô.


E em Berlim? Aqui a coisa até poderia engatar também, se a BVG tivesse tido o bom senso de escolher as linhas certas para isso. Mas não. Resolveu fazer o teste logo em Charlottenburg, um bairro tradicionalmente burguês, e o resultado é uma campanha com alvos inexistentes: estão faltando justamente os junkies e os dealers. Procurar por eles nessa parada é perda de tempo, já que não se encontra a alma viva de nenhum pela redondeza. A BVG, claro, sabe disso e sua porta-voz, Petra Reetz, explicou a medida assim: “Infelizmente, as possibilidades técnicas só podem ser aplicadas no momento aqui (leia: onde não tem nada, nada se faz). Além disso, analisamos se a música influi positivamente a atmosfera do metrô”. Eis o “x” da questão, pois é onde as opiniões se dividem. Para os passageiros amantes de música clássica, a medida foi prontamente aprovada: é agradabilíssimo esperar pelo próximo metrô ao som de alguma ária. Mas para os negociantes da estação, com gosto musical diferente, a resposta é outra.

Para eles, a ladainha sonora que são obrigados a ouvir diariamente serve apenas para espantar a clientela, não os dealers – além de enervá-los. Alguns, quando ficam de saco cheio com tantas sinfonias e óperas, decretam uma guerra musical ao ambiente. É quando as canções turcas passam a brigar com Mozart e Bach, produzindo uma tal poluição sonora, que o passageiro desprevinido chega a pensar que errou de endereço e entrou numa feira ou num bazar barulhento. Se continuar assim, talvez a BGV, por vias indiretas, atinja seu objetivo: não vai aparecer nenhum dealer porque não vai sobrar um pé de pessoa. Quem não é surdo e ainda tem juízo, vai começar a evitar essa parada, ou só se aventurar por ela com possantes protetores nos ouvidos. E aí o negócio vai estar feito para os ladrões, que apenas esse ano já assaltaram as lojinhas da estação por duas vezes. Mas se aqui a música também conseguir resolver, aí a BVG pode patentear o milagre, que o resto do mundo copia de bom grado.

Mais sobre o tema: bild.de e tagesspiegel.de

Fotos: Todas da parada de metrô Adenauerplatz. 1ª, bild.de; 2ª, flickers - Aqcthoms; 3ª, Uwe Heinrich.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Magia natalina


Isso não muda mesmo: o mundo pode estar mergulhado em apatia, atravessando uma crise econômica histórica, mas no mês de dezembro, como por um passe de mágica, as pessoas deixam-se envolver pelo espírito natalino. E os berlinenses não fogem à regra, muito pelo contrário: pontualmente para o 1º advento (no primeiro domingo do mês) entram no clima de festa e apresentam a sua decoração de Natal nas janelas, jardins e fachadas, especialmente nos tons tradicionais vermelho e dourado. É tempo dos homenzinhos de madeira portaincenso, das guirlandas iluminadas, dos pinheiros enfeitados por bolas, anjinhos e luzes, das velas e lareiras (para quem tem) acesas, dos cobertores macios cobrindo as pernas e uma xícara de chocolate quente ao lado, enquanto um se delicia nas páginas de um bom livro. O mês de dezembro vai muito além do imenso estresse provocado pela correria das compras de fim-de-ano e oferece também muitos momentos de aconchego, descontração e tranquilidade.


Berlim nesse período fica especialmente bonita, apesar de fria e úmida, já que estamos em pleno inverno. E possui uma atração a mais para os nativos e os turistas: as feiras de Natal, espalhadas pelos bairros da cidade, embora as mais frequentadas continuem sendo as de Mitte: na Potsdamer Platz, na Alexanderplatz ou no Gendarmenmarkt, onde cerca de 2,5 milhões de visitantes, segundo os dados das estatísticas, vão conferir o que elas possuem de melhor: os incontáveis cheiros, cores, formatos e sabores das delicadezas culinárias – de tortas, bolos e biscoitos recém saídos do forno, de docinhos variados, de salsichas assadas, de amêndoas, nozes e canela, de Glühwein, uma espécie de quentão aromático, e muito mais. Nos diversos estandes uma grande quantidade de bibelôs, com trabalhos artesanais da região ou de várias partes do planeta, uma oportunidade para se adquirir os últimos presentinhos ou apenas para se olhar sem compromisso. E para quem quer, muitas feiras oferecem ainda o fascínio dos parques de diversão: roda gigante, carrosséis coloridos, montanhas russas...


As lojas e shoppings da cidade, por seu turno, também não deixam por menos: fora os produtos normais – um leque de opções que vai do popular ao extremamente luxuoso –, apresentam uma variedade incrível de artigos da época e muitas atraem a clientela com uma caprichada decoração natalina. Além disso, os preços são convidativos. Segundo um estudo apresentado pelo site de finanças Online Money, Berlim é a cidade mais barata da Alemanha para compras, nessa época do ano – e isso deve-se a uma concorrência dura entre os negociantes, com uma loja atrás da outra competindo pelo espaço. E nessa selva econômica, pelo menos o coitado do consumidor comum, há muito abandonado pelo Papai Noel e castigado pela crise financeira, sai ganhando. Se não for mais um motivo para se gostar do Natal...


fotos: 1ª (berlinzoom.de), Portão de Brandemburgo; 2ª (internet), Gendarmemarkt; 3ª (dpa) Berliner Dom (a catedral berlinense); 4ª (hotel-savoy.com), Kudamm; 5ª (internet), guloseimas em uma feira de natal; 6ª (ddp), um papai noel moderno; 7ª (ddp) árvore de natal na garupa.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Flashs da semana


Lula em Berlim

Essa a Globo já deve ter noticiado em abundância. Mesmo assim, aqui vai: o nosso presidente esteve na cidade, encontrou-se com a chanceler alemã, Angela Merkel, participou de um jantar de gala oferecido pelo presidente Horst Köhler, fez alguns discursos, tirou fotos, visitou o Portão de Brandemburgo e deve ter batido bastante o queixo no úmido inverno berlinense. Essa é a segunda viagem oficial de Lula à Alemanha e na pauta dos assuntos discutidos foram tratados temas como o enriquecimento de urânio pelo Irã. Além disso, os dois países assinaram um memorando de entendimento sobre o combate às mudanças climáticas e a Alemanha ofereceu, ainda, ajuda ao Brasil para a organização da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Paraolímpicos, em 2016. Em contrapartida, pode se beneficiar com os projetos de infraestrutura que estão previstos no Brasil. É uma mão lavando a outra, né?


Show de Paul McCartney


Essa semana foi dedicada a nostalgia. Depois de 16 anos, Paul McCartney fez finalmente um novo show aqui em Berlim, no dia 03 de dezembro, na casa de espetáculos O2 World, em Friedrichshain. A entrada foi bastante salgada (os ingressos custaram até 160 euros!), mesmo assim, teve lotação esgotada: 12 mil pessoas foram ver, ouvir e cantar junto com o “mito vivo”, como os jornais propagavam o ex-Beatles. E McCartney não deixou por menos. Bem humorado, cumprimentou e falou com o público várias vezes em alemão. “Eu espero que vocês estejam me entendendo. Se não: isso é alemão!”, disse divertido. O espetáculo durou mais de duas horas e meia e foi feito num fôlego só, sem o astro tomar nem um copinho de água entre as 37 músicas que apresentou. Antes do último bis, ele ainda se permitiu a derradeira brincadeira e mandou o público para cama: “Infelizmente já está tão tarde. Vocês precisam ir dormir agora”. Depois de tão longo ritual de ninar, aposto que muitos até sonharam com anjinhos.


Visita de um pão francês

Quem lembra do homem? Ele é o Jean Michel Jarre e veio a Berlim para lançar junto à imprensa a sua "World Tour 2010", na Max-Schmeling-Halle (uma casa de espetáculos, em Prenzlauer Berg). Será uma turnê mundial, depois de 34 anos que a sua "Oxygene", com seus sons exóticos e suaves, começou a tocar nas rádios. Desde então, esse francês de traços joviais para quem já tem 61 anos (!), já vendeu 60 milhões de CDs e realizou alguns megashows mundo afora. E agora? Tja, para Jean Michel Jarre as salas de concerto alcançaram, finalmente, o futuro que ele ansiosamente esperava três décadas atrás, e hoje são tecnicamente boas o suficiente, segundo ele, para comportar e transmitir a magia dos seus espetáculos. Quer dizer: o espectador pode dar-se ao luxo de assistir ao concerto num ambiente fechado, protegido (santa técnica!) do vento e da chuva. Vamos ver se com essa vantagem a nova geração se anima para comprar o ingresso e ajudar a lotar a quadra. Caso contrário, vai ser um embalo sonoro a adoçar a lembrança da velha guarda. Mas o reumatismo dela, aquecido numa Halle coberta, vai agradecer assim mesmo.


Aniversário de Knut

Astro é astro e a caravana segue o rastro. Knut, o urso polar número 1, completou três aninhos de vida, com direito a uma grande torta de gelo, com frutas e verduras, onde três peixes congelados faziam as vezes de velas, ganhou um saco de estopa para brincar, com seu nome e o mágico número três bordados, além de uns cartões com gratulações (mas acho pouco provável que ele já tenha aprendido a ler) e a visita de muitos fãs. Após devorar a torta, encardir o pelo na areia, como tanto gosta, divirtiu-se à beça com Gianna (também chamada de Giovanna) – a ursa polar que veio de Munique e vai morar no seu cercado por uns meses, enquanto o dela é renovado. Após levar uma boa patada no focinho, Knut passou a se entender fantasticamente bem com a moça. E eu nem quero pensar no buraco que vai ficar na vida dele, quando a sua amiguinha tiver que ir embora. Aproveite, Knut, que o Tempo é hoje.

Fotos: 1ª (dpa), Lula com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o Ministro das Relações Exteriores (e vice-chanceler) Guido Westerwelle (FDP); 2ª (dpa) Paul MacCartney em concerto na O2 World, em Berlim; 3ª (ddp) Jean Michel Jarre; 4ª (ddp) Knut devorando a sua torta de aniversário, feita de gelo, frutas e verduras.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Julgamento tardio


O senhor da foto acima chama-se Kurt Gutmann, tem 82 anos de idade e mora há muito tempo no bairro de Friedrichshain, aqui em Berlim. Apesar da saúde bastante debilitada, ele viajou para Munique, a capital do estado da Baviera, que se localiza no outro extremo do país, a fim de depor, com mais outras vinte pessoas, no último (provavelmente) grande julgamento na Alemanha que se ocupa em esclarecer os horrores praticados pelos nazistas quando eles estavam no poder. O acusado é o ucraniano John Demjanjuk, nascido em 1920 como Iwan M. Demjanjuk, que 64 anos após o término da 2ª Guerra, está sendo acusado de colaborar na morte de 27 900 judeus, quando era carcereiro do campo de concentração de Sobibor, na Polônia. Esse é apenas o número das pessoas mortas entre março e setembro de 1943. No ano e meio que o campo funcionou, 250 mil judeus foram brutalmente “eliminados”.


Kurt Gutmann tinha na época 12 anos e escapou do holocausto por um fio. A mãe dele, que era judia, mandou-o com o irmão mais novo para Glasgow, na Escócia. Ela, que estava criando os filhos sozinha, não teve dinheiro para a passagem de toda a família e foi obrigada a ficar com o filho mais velho. Os dois foram deportados para Sobibor e lá morreram numa das câmaras de gás, em 1943. E o carcereiro? Quando a guerra terminou ele (o homem da foto acima) se mandou com a mulher para os EUA, onde viveu até então. Mas já em 1988 recebera a setença de morte em outro processo que o acusava de ser “Ivan, o terrível”, o guarda penitenciário sádico que maltratava impiedosamente os presos do campo de concentração de Treblinka. Por conta disso, ele perdeu inclusive a cidadania americana. A pena, contudo, foi cancelada em 1993, quando ficou comprovado que Demjanjuk fora confundido com um outro (terrível) Ivan. Só que os juízes de então já tinham provas do seu envolvimento em Sobibor.


Em 2002 vieram a público novos documentos que o comprometiam ainda mais e ele perdeu outra vez a cidadania americana. O processo, no entanto, arrastou-se por todo esse tempo e apenas em maio deste ano Demjanjuk foi mandado para a Alemanha. Independente de como será a setença, ele não vai viver tanto para cumpri-la até o fim. Para isso, esse processo chegou tarde demais. Mas para os sobreviventes de Sobibor e familiares das pessoas mortas na época o julgamento representa, mesmo assim, uma pequena compensação. “No momento que se torna quase legítimo negar o holocausto, o que importa é que as pessoas saibam da verdade”, enfatiza Gutmann. Para ele, o que restou da sua família foram as poucas fotos em preto e branco que cabem num envelope. E na alma, o que não se vê: uma imensa cicatriz que vai acompanhá-lo até o túmulo.

Mais sobre o tema aqui

Fotos: 1ª (B.Z.), Kurt Gutmann, sendo entrevistado em seu apartamento, em Friedrichshain; 2ª (internet) o antigo carcereiro John Demjanjuk numa foto recente; 3ª (internet), judeus chegando no campo de concentração de Sobibor.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pássaro na linha


Um passarinho teve uma morte espetacular aqui em Berlim, que foi noticiada por todos os meios de comunicação da cidade. É que, com o seu último suspiro, ele causou um grande caos na estação principal (Hauptbahnhof), comprometendo quase todas as suas linhas. Sabe-se lá por que cargas dágua, o pássaro achou de pousar justo no sistema de eletricidade de um trem ICE que vinha chegando de Hamburgo. Resultado: ocasionou um curto-circuito em série suficiente para danificar os cabos elétricos do teto da estação e nocautear uma via férrea atrás da outra: a número um, a dois, a três, a quatro... E a ferroviária ficou praticamente desativada.


Aí começou um verdadeiro Deus-nos-acuda. Um monte de trem precisou ter a rota desviada e até ontem vários trilhos estavam ainda bloqueados. Aliás, isso só foi a cereja do bolo, porque a estação já vinha com o acesso limitado, do lado leste tanto quanto do oeste, por conta da troca de alguns trilhos. Parece ser o lema da cidade: pequeno problema, grandes consequências. E para os passageiros restou sentirem na pele a veracidade dessa assertiva e pagarem o pato pelo descuido do passarinho: tiveram que saltar antes, mudar de trem, contar com atraso... Um megatranstorno, enfim.



Que os pássaros podem dar problemas em aviões quando são sugados pelas turbinas, é um fato conhecido. Mas com trem, parece ser um novo trend que os emplumados estão lançando em Berlim. Recentemente, o trajeto leste-oeste da via urbana foi vedado ao trânsito porque alguns cisnes em migração decidiram fazer uma pausa e pousar por lá. Enquanto durou o piquenique da bicharada, nenhum trem circulou. É mole?

Fotos: 1ª (Ulfbuschmann.de), a estação principal de Berlim (Hauptbahnhof); 2ª (internet), uma das vias da estação; 3ª e 4ª (internet), a estação por dentro e uma gralha no trilho.

Mais sobre o tema aqui